Fazer ou não fazer terapia, eis a questão

Em algum momento da sua vida, terá sentido tristeza, desmotivação ou ansiedade. Isto pode estar associado a um acontecimento de vida negativo em particular, como a perda de alguém querido (por morte, separação ou divórcio), a perda da carreira (com possíveis dificuldades financeiras), uma doença, uma lesão ou a perda de saúde, ou dificuldades nas relações. O impacto que estes acontecimentos de vida negativos podem ter em si depende de vários fatores, como as atribuições que faz (por exemplo, acha que foi totalmente culpa sua ou que foram as circunstâncias que levaram a determinado desfecho negativo?), a rede de apoio social que tem (família e amigos), as suas experiências anteriores de lidar com a adversidade e, de forma geral, a sua história de desenvolvimento (ou, por outras palavras, a forma como cresceu no seu ambiente familiar).
Mais importante do que a gravidade dos acontecimentos de vida negativos que vive é o impacto que têm na sua vida e no seu funcionamento, e a forma como lida com eles. Por exemplo, afetaram a sua relação com os outros ou consigo? Afetaram a sua capacidade de trabalhar, de brincar ou de se divertir? E a sua capacidade de realizar as atividades do dia a dia, manteve-se intacta? Deixou de fazer coisas de que gostava? Começou a beber ou a jogar (substitua pela estratégia que usa para lidar com as dificuldades)? Ou tentou simplesmente afastar as emoções negativas e fechar-se?
Pode falar com os seus amigos e familiares sobre o que se está a passar consigo, e isso é ótimo. Sabemos, pela investigação em psicologia, que ter uma rede de apoio social é um bom fator de proteção contra a depressão. No entanto, a relação que tem com os seus amigos ou familiares é muito diferente da relação que teria com o seu terapeuta. Uma das principais diferenças é que, com os amigos e a família, é provável que tenha uma relação recíproca (preocupa-se com eles e eles preocupam-se consigo), enquanto a relação com o seu terapeuta é exclusivamente sobre si. Não se fala «à vez», como acontece com os amigos ou a família (nota: se não tem relações recíprocas com outros adultos na sua vida, talvez deva considerar fazer terapia!). A outra diferença óbvia é que o seu terapeuta terá tido uma formação aprofundada em teoria, conhecimento e investigação psicológica, que utilizará no contexto clínico. Por outro lado, é a si que cabe trazer o conhecimento sobre o que é ser quem é, quais são as questões com que quer ajuda e as áreas que quer desenvolver e explorar sobre si e sobre a sua vida. Assim, o seu conhecimento e o do terapeuta juntam-se ao serviço do seu bem-estar.
Entre outras coisas, a terapia pode ajudar a gerir e a reduzir os sintomas, mas, acima de tudo, pode ajudar a construir uma vida com mais sentido e mais rica. Vai aprender:
– a compreender como os seus problemas se desenvolveram e se mantiveram ao longo do tempo;
– a encontrar formas mais adaptativas de lidar com eles;
– a explorar o que é importante e significativo para si e a trabalhar nesse sentido;
– a manter o rumo e a preservar os ganhos da terapia
Em resumo, fazer ou não fazer terapia é uma decisão individual que só a si cabe tomar. Se viveu acontecimentos que tiveram um impacto negativo na sua vida e no seu funcionamento, e tem tido emoções negativas persistentes (mesmo que, vista de fora, a sua vida pareça estar a correr bem), a terapia pode ser um apoio para encontrar um caminho para se sentir melhor. Pelo contrário, pode sentir-se bem e querer fazer um trabalho mais exploratório sobre a forma como as suas experiências de crescimento afetaram o seu padrão atual de relações. Sejam quais forem as suas motivações para fazer terapia, este pode ser um processo «revelador» e levar a mudanças significativas na sua vida. Também pode sentir que ainda não é o momento certo, e isso também está bem. O importante é não se enganar a si mesmo.
